A sistematização da moral e o paradoxo do cachorro preso
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Artigo Publicado Intelligence type existentialist REA

A sistematização da moral e o paradoxo do cachorro preso

Artigo com foco em refletir sobre como a moral e a ética não são sistemas normativos fechados e inflexíveis,
Como a procura por sistemas morais rígidos e universais pode sufocar a ética prática, utilizando o paradoxo do cachorro preso para ilustrar que a verdadeira moralidade exige liberdade de escolha, e não apenas a obediência cega a regras pré-estabelecidas. Ao priorizar a estrutura em detrimento da vivência, corre-se o risco de criar indivíduos que agem corretamente por falta de alternativa, esvaziando o valor intrínseco do ato moral.
Matheus dos Santos • Florianópolis • Intelligence type existentialist • 11/05/2026
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Objetivo educacional
Refletir sobre como a moral e a ética não são sistemas normativos fechados e inflexíveis, permitindo classificar diferentes ações como morais ou imorais ao analisá-las em diferentes contextos.
Conteúdo
Certamente, você já indagou se determinada ação tomada foi correta ou não. Todavia, não há uma fórmula fidedigna da qual possamos extrair todo juízo de valor — o julgamento feito sobre as coisas — , assim, impossibilitando qualquer resposta universalmente aplicável a todos dilemas. Debates relacionados a moralidade — implicando o que devia ou não ser feito nas relações envolvendo outrem — tiveram tamanha notoriedade pela filosofia ao longo dos séculos, sobretudo, dificilmente há um que destoa dos demais em questão de perfeição lógica, isto é, ausente de falhas eventuais. Por mais que seja próxima de uma ética ideal e racional — tal como uma derivada do imperativo categórico kantiano — , a visão sobre a moral encontra eventuais falhas, impossibilitando a simplificação da moralidade. Basicamente, desde que vivemos em sociedades — das mais primitivas até as mais civilizadas — há padrões de comportamento aceitos e outros reprováveis. Essa padronização depende de um elemento que engloba as tradições, a religião e a educação de um povo: a cultura. Em poucas palavras, a cultura é um conjunto de características específicas de um povo transmitidas ao longo das gerações, incluindo o que é considerado certo e errado — os valores. Contudo, a cultura não é uniforme, logo, os valores também não são. Na África, certas tribos, como a tribo Himba, consideram a poligamia correta, enquanto a sociedade ocidental toda, reprova esse tipo de relacionamento, o mesmo caso se aplica ao canibalismo. Na filosofia, estende-se um debate secular sobre a moralidade, havendo uma diversidade de visões a respeito das ações humanas. Podemos destacar três delas: a do comando divino, a utilitarista e a moral do dever de Immanuel Kant. 1. A moral de comando É o código moral provindo da influência cultural religiosa, sendo fundamentado pela revelação divina, onde o certo e o errado é determinado por um agente metafísico — Deus — , sendo este a essência do certo. A moral cristã se enquadra nesta categoria, tendo nos textos sagrados do evangelho — conhecidos como a palavra do divino — , a fonte da qual extrai a sua bússola moral. 2. Moral Utilitarista Moral proposta pelo jurista e filósofo Jeremy Bentham, caracterizada por ser pautada na consequência de uma ação e não nela em si. Ademais, essa consequência precisa expandir a felicidade ou prazer, ao maior número possível de pessoas. É o bem estar que importa na hora de julgar uma ação correta. O icônico Robin Hood quando rouba dos ricos para dar aos pobres, dentro da filosofia moral utilitarista, está correto, já que, dando mais aos pobres, está livrando-os do sofrimento; aumentando o bem estar deles. 3. Moral do Dever É o código moral de Immanuel Kant, cujo as raízes descendem da valorização da razão do iluminismo. Kant, inserido em uma sociedade cristã, com a moral religiosa, pretende racionaliza-lá. O certo não é mais o demandado a fazer, e sim aquilo não desejado a ser feito para com si mesmo e desassociado de consequência, ou seja, a consequência não torna a ação correta, pelo contrário. A ação julgada correta, depende então, da ação pela ação, fundamentada na vontade pura de agir corretamente, considerando-a exemplo para todos seguirem-na. “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.” “Age de tal forma que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio.” Várias ações julgadas erradas possuem influência da moral kantiana. Quando falamos que a corrupção não é justificável nem quando é feita com bons propósitos ou quando não toleramos a mentira, estamos tendo claramente a essência de Kant em nosso juízo de valor. O paradoxo do cachorro preso no carro Imagine um cenário como este: Um cachorro x está preso dentro de um carro por horas, sem água e nem comida, um sujeito z então passa e ouve o latido do cachorro vindo de dentro do carro, resolve quebrar o vidro do carro e abri-ló, e, por fim, salvar o cachorro. Segundo a moral religiosa: (i) Não há nenhum comando divino sobre a atitude de salvar o cachorro x, se é certa ou errada. (ii) Se o ente divino determinasse a morte do cachorro x como correta, o sujeito z ao salvar o cachorro estaria errado. Segundo a moral utilitarista: (i) Salvando o cachorro x, simplesmente por salvar, o sujeito z não fez uma atitude correta. (ii) Por outro lado, se o cachorro x é uma ameaça pela bravura ou por ter raiva, em ambos os casos, por infringir no bem estar dos demais, o sujeito z errou em salvá-lo. Segundo a moral do dever: Ao quebrar o vidro do carro, o sujeito z, acaba por cometer vandalismo, este não iria aprovar ou desejar que o mesmo acontecesse com seu carro. Caso o sujeito z salvasse o cachorro x pensando em aparecer no noticiário ou ficar com uma imagem positiva, não foi uma ação correta. Embora inúmeros grupos usufruam de um código moral pronto e sistemático — os cristãos com a moral de comando e os conservadores com uma moral derivada da moral do dever — , em algumas situações, há um conflito moral entre o certo e errado, colocando em cheque qualquer reducionismo ético para guiar as relações humanas. Qualquer ação humana está passível de julgamento, contudo, não significa que devemos relativizar tudo aquilo considerado certo e errado, delegando essa tarefa a subjetividade de cada indivíduo, mas sim chegar a um denominador comum, uma fusão do aproveitável de cada um. O princípio cristão de que matar é errado, é um bom princípio, assim como o utilitarista quando analisamos atendimento médico gratuito para pessoas pobres via impostos ou o kantiano quando punimos uma pessoa por roubar. É mais proveitoso que desfrutemos de uma relação harmoniosa, sustentada pelas normas de civilidade, na qual estas são baseadas na eficácia e não no viés religioso ou idealista. Creio eu, que a humanidade já está na direção de superar o moralismo — embora ainda haja aqueles que se opõem ao progresso, como no caso do aborto — , e quem sabe, um dia, elaborar uma sociedade onde o julgamento sobre as ações humanas seja feito com prudência, sem tropeçar em imperativos morais e idealistas.
Referências
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. ASSIS, Machado de. O alienista. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. MILL, John Stuart. Sobre a liberdade. Tradução de Alberto da Rocha Barros. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
Continuidade dialética
Como este conhecimento evolui:
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Este post é a tese. Leituras críticas e sínteses derivadas podem ampliar sua maturidade.


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