A relação entre produção de alimentos, população urbana, idh e desmatamento na América do Sul: uma análise econométrica
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Artigo Publicado Lógico-matemática REA

A relação entre produção de alimentos, população urbana, idh e desmatamento na América do Sul: uma análise econométrica

Artigo com foco em apresentar como a produção de cereais e o crescimento urbano contribuem com a perda de flo

O desmatamento é uma ação humana que atinge as próximas gerações, diminuindo a área de florestas primárias e diminuindo a biodiversidade no ambiente. O artigo busca investigar através de um exercício econométrico se a perda da área de floresta tem relação com a produção de cereais, como uma variável interpretada pela agricultura, e o crescimento na população urbana. A produção de cereais significa que a área que antes era florestal passa a ser usada para o plantio de cereais e a migração urbana significa uma dependência de consumo, que indiretamente impacta florestas. Como variável de controle são utilizados o voice accountability (contagem de voz), que significa a participação na escolha de seu governo, liberdade de associação e mídia livre. Também foram utilizadas como variáveis de controle o índice de corrupção estimada, em vista de que mais corrupção implica em mais desmatamento, e a variável de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH - educação, longevidade e renda), que mediante o exercício demonstrou que países com maior IDH contribuem com a diminuição no desmatamento. O artigo visa fornecer resultados que levem a políticas saudáveis para o mantimento das florestas e trazer à tona o debate sobre a importância do mantimento das florestas primárias para promover o desenvolvimento econômico sustentável. 

Thiago Santos da Silva • Lógico-matemática • 22/02/2022
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Objetivo educacional

Apresentar como a produção de cereais e o crescimento urbano contribuem com a perda de florestas.

Conteúdo
  1. Introdução:

A América do Sul abriga a maior floresta tropical do mundo, com cerca de 60 mil espécies e a floresta possui a maior biodiversidade. De acordo com a FAO, existem cerca de 864 milhões de  hectares de área arbórea na América do Sul e entre os anos de 1990 e 2010 o continente perdeu uma média de 4.105.150 hectares, o que significa uma perda de 0,43(percent) ao ano. Entre 1985 e 2018, a América do Sul perdeu cerca de 16(percent) de sua cobertura arbórea. Entre 2000 e 2005 cerca de 4,3 milhões de hectares foram desmatados por ano e a maior perda de floresta ocorreu na floresta amazônica. 

Mais de 97 (percent) das florestas desta região são encontradas na América do Sul, incluindo a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, com maior biodiversidade. Entre o ano de 2000 a 2005, sabe-se que foram desmatados 4,3 milhões de hectares por ano e a maior dessas perdas foi na floresta amazônica, no qual as maiores extensões de floresta são desmatadas em função da pecuária, plantações de soja e agricultura de subsistência. 

Segundo o Animal Business, A pecuária ocupou uma área de 350 milhões de hectares entre os anos de 1995 a 2006. A soja ocupa uma área de 36 milhões de hectares, representando 4,3(percent) do território nacional, e sua maior área está na região do Cerrado, onde a soja avançou 16,8 milhões de hectares nos últimos 36 anos. 

De acordo com o site Mongabay, 60 milhões de hectares de floresta primária já foram destruídos desde 2002 e só no Pará, um estudo apontou que 70(percent) da madeira explorada é comercializada ilegalmente. Durante o desmatamento, também ocorrem de maneira generalizada extrações ilegais de madeira. A preocupação da comunidade científica é de que a perda de floresta possa aumentar devido às condições cada vez mais secas, um processo que pode se desencadear devido a que existe um equilíbrio hídrico realizado pela floresta tropical e sua retirada implica em acontecimentos inesperados como desequilíbrios ambientais e que  claramente contribuem para o aquecimento global.

Segundo o site Clima Info, a América do Sul perdeu 16(percent) da sua cobertura florestal entre 1985 e 2018. Neste período, houve um aumento de 56(percent) em áreas de uso extensivo: pastagem, lavoura e reflorestamento. Especificamente, a área das pastagens aumentou em 16(percent), a de lavouras em 160(percent) e a dos reflorestamentos em quase 300(percent). Nesta análise o Brasil aparece como o País que mais desmata, em função da sua extensão territorial  ser maior que a dos outros países da América do Sul. As áreas com alteração de solo ou vegetação aumentaram 64(percent) e neste incluíram-se as cidades, passando de pouco mais de 240 milhões para quase 400 milhões de hectares, grande parte derrubando matas nativas dos principais biomas. 

A hipótese do trabalho é de que a migração urbana e a produção de cereais possam impactar a perda de florestas, pois a área utilizada para produção de cereais era uma floresta outrora e a migração urbana implica num maior consumo de alimentos que não são produzidos pelas famílias que consomem. A produção de alimentos em larga escala implica em uma agricultura mecanizada com utilização de pesticidas, que fazem mal tanto para o ser humano que consome quanto para o solo que absorve os agrotóxicos. O que se supõe é que a produção de cereais e o crescimento urbano impactem a perda de riquezas naturais como as florestas e com elas toda a biodiversidade. Os resultados desta pesquisa são de interesse para os formuladores de políticas, ONGs e ambientalistas da América do Sul. 

Neste contexto, a problemática do presente estudo pode ser encerrada com o seguinte questionamento: será que poderemos explicar o desmatamento a partir das variáveis da produção de cereais e o crescimento urbano?

Para responder a este problema de pesquisa, o presente trabalho avalia o impacto da perda de florestas nos países da América do Sul, a fim de descobrir se a produção de cereais e o crescimento urbano impactam a perda de florestas. Como variáveis de controle, serão avaliados os parâmetros de voz, empoderamento e responsabilidade (voice accountability), controle de corrupção estimada e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nos países da América do Sul. Em vista de que o tipo estabelecido de desenvolvimento econômico nestes países, em desenvolvimento, tende a causar maior impacto sobre os recursos naturais finitos e como consequência pode resultar num maior declínio da cobertura florestal e como consequência a perda de biodiversidade. Dentre os países selecionados estão o Brasil, Paraguai, Venezuela, Peru, Argentina, Equador, Uruguai, Chile, Bolívia e Colômbia. O período analisado compreende os anos de 2005 até 2015 com dados abertos extraídos do Banco Mundial. 

Ao trazer à tona a questão do desenvolvimento econômico insustentável que, de acordo com a ONU, apontam para o aquecimento global para as próximas gerações. O aquecimento global remete à impossibilidade de manter o atual modelo de sistema produtivo e, portanto, significa uma diminuição dos padrões de consumo. De acordo com a pesquisa realizada, os parâmetros de voice accountability (liberdade de expressão, liberdade de associação e mídia livre) apontam para menos desmatamento, bem como graus maiores de corrupção significam maiores perdas de floresta. O desafio no momento é trazer à tona o crescimento econômico insustentável fundamentado na destruição de florestas em prol da geração de recursos privados para posteriormente propor modelos de organização social sustentáveis. A próxima seção aborda com maior profundidade a literatura sobre o tema da perda de floresta.

 O presente estudo baseia-se em Chang (2017), que investigou a perda de florestas na América Central sobre o crescimento industrial, utilizando um exercício econométrico. O autor fornece argumentos sobre os desafios ambientais a respeito do mantimento dos recursos naturais.

A estratégia empírica está descrita e explicada em detalhes com o fornecimento de equação funcional envolvendo os devidos fatores de consideração. O resultado da análise dos dados em painel serão apresentados em forma de tabela. Por fim, este trabalho realiza interpretações sobre o modelo econométrico aplicado e indica as implicações das atuais atividades de desenvolvimento econômico e como podem ser melhoradas para evitar mais desmatamento na América do Sul. O próximo capítulo aborda a contribuição dos autores acerca de investigações sobre o desenvolvimento econômico e a perda de área florestal. 

Esta pesquisa buscou contribuir com o estudo de economistas, pois serve como verificação de validade externa para as teorias e resultados que foram gerados em estudos anteriores. A pesquisa afirma a importância de políticas de desenvolvimento econômico sustentável a fim de minimizar o esgotamento dos recursos naturais durante o curso do desenvolvimento.

 

2. MARCO TEÓRICO

Dentre os estudos econométricos que contribuíram com a temática, o trabalho mais recente encontrado foi de Chang Chia-Wei (2017), sobre a relação entre o crescimento econômico e desmatamento na América Central e Caribe, comparado com o avanço industrial nestes países. Chang (2017) teve seu fundamento em trabalhos de Pare’s-Ramos et al. (2008), que escreveu sobre o abandono agrícola, crescimento suburbano e expansão florestal em Porto Rico entre os anos de 1991 e 2000, e Dourojeanni (1999), que escreveu sobre o Futuro das Florestas Naturais na América Latina. 

Dourojeanni (1999) pesquisou as tendências de desmatamento e degradação florestal nas décadas anteriores na América Latina, pois tinha preocupações quanto ao desenvolvimento sustentável. Ele afirma que as desigualdades sociais e a pobreza associadas são as principais causas da perda de áreas florestais que são agravadas pelas políticas de crescimento econômico e favorecem a exploração descuidada das florestas naturais. 

Théry e Caron (2020, p. 6) afirmam que há controvérsias entre a produção de alimentos e a preservação ambiental. Dentre os efeitos negativos da produção de alimentos, está o uso dos solos, pois a conversão de ecossistemas em solo agrícola encadeia, na maioria das vezes, o aumento de emissões de CO2, a eutrofização (poluição dos corpos d’água), perda de produtividade, energia e recursos naturais. 

Esse processo decorre da necessidade de expansão para novas áreas nos ecossistemas florestais tropicais ou da intensificação da produção agropecuária, baseada no uso de fertilizantes e agrotóxicos. Em alguns países, mesmo havendo consciência dos impactos da conversão de ecossistemas em áreas agrícolas esse processo continua. (Théry et Caron, 2020 apud FAO, 2006; SVB, 2015). 

Como solução, Théry e Caron (2020) indicam o land sparing, que significa separar a terra entre áreas dedicadas à proteção da biodiversidade, sem produção agrícola das áreas de produção agrícola e o land sharing, que significa uma produção ecológica por meio do compartilhamento de terras e do fomento desses serviços em ambientes agrícolas. 

Gomes e Braga (2007) apontam que o aumento no IDH se aplica sobre o fator de educação para a diminuição no índice de desmatamento, e que a redução do impacto sobre o meio ambiente só será alcançado caso sejam implementadas políticas de proteção, educação ambiental e a melhora dos sistemas produtivos da região. Como solução, Gomes e Braga (2007) apontam para a necessidade de infraestrutura, investimento em pesquisa, tecnologia e inovação, política de implantação de áreas protegidas, reservas florestais, a regulação dos títulos de terra e a política macroeconômica regional e nacional.

 

3. REVISÃO DE LITERATURA

Esta seção fornece uma visão geral dos estudos empíricos  existente sobre o desmatamento e os argumentos empíricos sobre a tendência do desmatamento, especificamente na América do Sul. 

Para Chang (2017, p.3), o desmatamento não pode ser definido adequadamente sem esclarecer o conceito de “floresta”. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) divulgou os critérios comuns para florestas na Avaliação Global de Recursos Florestais, afirmando que são terras de mais de 0,5 hectares, com uma cobertura de árvores de mais de 10 por cento, que não estão, principalmente, sob uso agrícola. Essa definição contribui para uma medida comum para o cálculo da cobertura florestal entre os países e é possível alinhar os dados dispostos por bancos de dados de organizações internacionais como o Banco Mundial e a FAO. Por conseguinte, o termo desmatamento sugere a derrubada de floresta específica existente ou a conversão dessas áreas em outro uso da terra (CHANG apud FAO, 2015).

A questão do desmatamento é um dos principais temas para essa e as próximas gerações, pois se trata de um recurso finito fundamental para o mantimento do equilíbrio climático e hídrico, bem como o mantimento da biodiversidade. Em vista de que as gerações anteriores não fizeram uso consciente deste recurso e os esforços científicos, (MARSDEN, 2011) aponta para um colapso iminente. Para o autor, o processo econômico de produção e consumo tem como principal impacto o efeito estufa, causado por emissões de gás carbônico. Esse efeito estufa pode aumentar a temperatura de tal maneira a ocasionar o derretimento do permafrost, congelado há mais de 10.000 anos. Esse derretimento implica a liberação de mais carbono na atmosfera, acelerando ainda mais o aquecimento global.

Para Terry Marsden (2011), é fundamental a substituição dos modelos de consumo de alimento das agriculturas mecanizadas para modelos agroflorestais. Pois a agrofloresta abrange o mantimento da biodiversidade, mantém espécies nativas e alimenta a população sem o uso de agrotóxicos. Corroborando,  Burigo e Porto (2021, p. 4418) argumenta que as abordagens agroecológicas reconhecem que os sistemas agroalimentares são sistemas sociais e ecológicos combinados, que vão da produção ao consumo de alimentos e envolvem a participação da ciência, da prática e de um movimento social, bem como sua integração holística, para abordar a segurança alimentar e a nutrição.

Para evitar um aquecimento global, o raciocínio é de que as árvores fixam o carbono na atmosfera e contribuem na diminuição do impacto industrial (emissão de CO2). A Floresta Amazônica (Brasil, Peru, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa) é a maior reserva de florestas tropicais no mundo e desde 2018, vêm quebrando recordes de desmatamento, em vista de sua referência para a biodiversidade. 

Segundo Chang (2017), os países em desenvolvimento têm experimentado um sério trade-off entre o meio ambiente e o crescimento econômico, desde o seu estágio inicial de desenvolvimento. A ONU afirma que os países em desenvolvimento com alto crescimento econômico, tal como o Brasil, geralmente extraem matérias-primas da floresta e do mar para atividades de subsistência, causando um impacto significativo em sua biosfera (CHANG apud BRUNDTLAND, 1987). 

Chang (2017) afirma que os fatores geográficos e de infraestrutura que promovem o desenvolvimento econômico também impulsionam o desmatamento (CHANG apud GRIMM, 2009). E aponta que outros estudos sugeriram que a floresta tropical desaparecerá completamente já na década de 2060 se nenhum ajuste de política e gerenciamento adequado das atividades humanas em desenvolvimento forem realizados (CHANG Apud MEADOW et al., 2006). 

Dentre os estudos que promoveram esta temática é possível assinalar a contribuição de Chia-Wei Chang (2017) que desenvolveu um modelo econométrico para a América Central sobre o desmatamento e o desenvolvimento econômico de grandes empresas locais, também incluiu em sua análise o desenvolvimento da agricultura na região. Chang ainda afirma que há um consenso entre os estudiosos de que as economias em expansão representam ameaças significativas para a floresta na América Latina. 

Segundo Chang (2017 apud Kaimowitz et al, 1996 & FAO 2015), a expansão em larga escala de plantações agrícolas para fins comerciais leva a floresta a diminuir, bem como o crescimento da pecuária também piora a situação do desmatamento por meio da expansão das pastagens (CHANG apud WEAVER, 1999 & TOLE, 1998) BUSCAR OS TRABALHOS ORIGINAIS. O que se supõe é que a América do Sul faz seu crescimento em cima da venda de commodities, tal qual a venda de carne e cereais para exportação.

Para Chang (2017, p. 6), o mantimento de um sistema florestal sustentável e intacto produz muitas implicações positivas para o ambiente, a fixação do carbono atmosférico em biomassa, a regeneração do oxigênio e o fornecimento de abrigo a milhões de animais selvagens no planeta, que permite a manutenção do equilíbrio biológico no reino animal. E o desmatamento ameaça principalmente os países que dependem de setores agrícolas, que são sensíveis às mudanças de temperatura e chuva. 

Como consequência, poderão haver dificuldades maiores na implementação de estratégias de alívio da pobreza nesses países (CHANG apud COMBES MOTEL et al, 2014). A alteração de ambientes ecológicos naturais por plantações agrícolas cria distúrbios ecológicos, surgimento de doenças zoonóticas, como Ebola, MERS, e SARS (como o Coronavírus), que aparecem por conta das mudanças ambientais e ameaçam a manutenção da saúde pública e do sistema médico. Chang (2017, p.7) afirma que, segundo a UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, 2016), os custos no combate a essas doenças ultrapassaram US$ 100 bilhões entre 2005 e 2015. 

4. Fatos estilizados acerca dos fenômenos relacionados ao desmatamento

Segundo o Banco Mundial, a área florestal é a terra sob povoamentos naturais ou plantados de árvores de pelo menos cinco metros, produtivas ou não, e exclui povoamentos de árvores em sistemas de produção agrícola (fruteiras e sistemas agroflorestais) e árvores em parques e jardins urbanos. 

Tabela 1. Área florestal de países da América do Sul

 20052015Diferença
Argentina11,61(percent)10,63(percent)-1(percent)
Bolívia49,93(percent)48,02(percent)-1,91(percent)
Brasil63,57(percent)60,28(percent)-3,28(percent)
Chile21,88(percent)23,66(percent)+1,78(percent)
Colômbia55,67(percent)54,19(percent)-1,48(percent)
Equador53,87(percent)51,61(percent)-2,26(percent)
Peru58,33(percent)57,18(percent)-1,15(percent)
Paraguai53,56(percent)44(percent)-9,52(percent)
Uruguai8,8(percent)10,97(percent)+2,12(percent)
Venezuela54,79(percent)52,92(percent)-1,87(percent)
Mundo30,99(percent)30,74(percent)-0,25(percent)

Na medida em que as ameaças à biodiversidade aumentam, a comunidade internacional se concentra mais na conservação da diversidade. O desmatamento é uma das principais causas da perda de biodiversidade, e a conservação do habitat é vital para conter essa perda. Os esforços de conservação têm se concentrado na proteção de áreas de alta biodiversidade. Mais de um terço de toda a floresta é floresta primária, que são florestas de espécies nativas onde não há indicações de atividades humanas e os processos ecológicos não foram significativamente perturbados. 

As florestas primárias, em particular as florestas tropicais úmidas, incluem os ecossistemas terrestres mais diversificados e ricos em espécies. A destruição das florestas tropicais continua sendo um problema ambiental significativo, pois o que resta das florestas tropicais do mundo está na bacia amazônica, onde a Floresta Amazônica cobre aproximadamente 4 milhões de quilômetros quadrados. As florestas cobrem cerca de 31(percent) da área total do mundo; a área florestal total do mundo é de pouco mais de 4 bilhões de hectares. As florestas primárias, em particular as florestas tropicais úmidas, incluem os ecossistemas terrestres mais diversificados e ricos em espécies.

De acordo com os dados do Banco Mundial, todos os países apresentaram um crescimento voltado para as cidades, significando uma transição do meio rural para o urbano. No ano de  2005, havia 49,15(percent) de pessoas morando no meio urbano e em 2015 passou para 53,91(percent) que significou uma média de migração de 4,76(percent) em todo o mundo para a indústria de massa, tecnologia e serviços. Isso porque as cidades oferecem empregos e renda, bem como educação, saúde e outros serviços que proporcionam conforto e bem-estar. Não existe um padrão consistente e universalmente aceito para distinguir as áreas urbanas das rurais.

Veiga (2002) afirma que pode existir um equívoco sobre a noção de cidade, em que no Brasil, vários municípios recebem o título de cidade, visto que não possuem vinte mil habitantes, portanto esses municípios  podem ser considerados rurais e não urbanos. Alguns países definem a área urbana por apresentar infraestrutura e serviços, outros países designam áreas urbanas com base em arranjos administrativos. Os dados foram coletados pela Divisão de Populações das Nações Unidas e divulgados pelo Banco Mundial. 

Tabela 2. População Urbana nos países da América do Sul

 20052015Migração
Argentina90,03(percent)91,5(percent)1,5(percent)
Bolívia64,17(percent)68,39(percent)4,2(percent)
Brasil82,83(percent)85,77(percent)2,94(percent)
Chile86,78(percent)87,36(percent)0,58(percent)
Colômbia76,02(percent)79,76(percent)3,74(percent)
Equador61,71(percent)63,39(percent)1,68(percent)
Peru75,03(percent)77,35(percent)2,32(percent)
Paraguai57,63(percent)60,75(percent)3,12(percent)
Uruguai93,31(percent)95,04(percent)1,73(percent)
Venezuela87,95(percent)88,15(percent)0,2(percent)
Mundo49,15(percent)53,91(percent)4,76(percent)

O aumento populacional em áreas urbanas indica um consumo maior de áreas rurais para satisfazer as necessidades urbanas, como por exemplo o plantio e a pecuária para o consumo de carne. Nas cidades tudo vem de longe, os alimentos vêm dos campos e os produtos derivam de outros municípios, bem como de toda parte do mundo. 

Os dados de produção de cereais referem-se a culturas colhidas apenas para grãos secos. As culturas de cereais colhidas para feno ou colhidas verdes para alimentação, ração ou silagem e aquelas usadas para pastagem são excluídas. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que os cereais forneçam 51(percent) das calorias e 47(percent) das proteínas na dieta média e estima que o milho, trigo e arroz juntos representam mais de três quartos de toda a produção de grãos em todo o mundo. Nos países em desenvolvimento, uma variedade de métodos de colheita é usada no cultivo de cereais, dependendo do custo da mão de obra, bem como o uso de máquinas específicas para a colheita. 

Os sistemas de produção de culturas evoluíram ao longo do século passado e resultaram em um aumento significativo do rendimento das culturas, mas o motivo de estar nesta pesquisa econométrica é que contribuem com efeitos colaterais ambientais indesejáveis, como degradação e erosão do solo, poluição por fertilizantes químicos e agroquímicos e perda de biodiversidade. Os dados foram fornecidos pela Organização das Nações Unidas para Agricultura (FAO), divulgados pelo Banco Mundial e  licenciados em Creative Commons 4.0.

Tabela 3. Produção de Cereais nos países da América do Sul

 20052015Diferença
Argentina41 mi55,97 mi34(percent)
Bolívia1,6 mi2,93 mi76,82(percent)
Brasil55,67 mi106 mi90,45(percent)
Chile3,98 mi3,78 mi- 5,29(percent)
Colômbia4,10 mi4,0 mi - 2,5(percent)
Equador2,3 mi3,56 mi54,78(percent)
Peru4,13 mi5,46 mi32,2(percent)
Paraguai1,97 mi7 mi255(percent)
Uruguai2,35 mi3,61 mi53,6(percent)
Venezuela3,58 mi2,29 mi- 56,33(percent)
Mundo2,25 bi 2,85 bi26,66(percent)

A produção de cereais só não aumentou no Chile, Colômbia e Venezuela. Enquanto nos outros países e a média no mundo também tiveram um considerável aumento. A produção de cereais  afeta diretamente o desmatamento, porque a área de plantio na América Latina era outrora uma floresta com tal biodiversidade.

 

5. METODOLOGIA

5.1. Fonte e base dos dados

O presente estudo coletou por meio do Banco de Dados do Banco Mundial e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) com o objetivo de garantir a conclusão dos dados e a medição coerente entre os países da região estudada. Os onze anos de dados são usados para uma avaliação sobre a tendência de mudanças em termos de diferentes resultados de produção e indicadores ambientais, com o objetivo de moldar o quadro geral do desenvolvimento regional. Abaixo fonte das variáveis:

FA – Área Florestal – variável em nível. Fonte: Banco Mundial & FAO -  2005-2015;

CP – Produção de Cereais medidas em toneladas métricas, escala logarítmica.  Fonte: Banco Mundial & FAO  - 2005-2015;

UP – População Urbana medida como percentual da população total do país..  Fonte: Banco Mundial & FAO - 2005-2015;

HDI – Índice de desenvolvimento humano. Fonte: ONU 2005-2015;

VA – Voice and Accountability – representa a percepção da população com relação a: participação popular, liberdade de expressão e mídia livre. Esta variável varia de -2,5 a 2,5. Fonte: Banco Mundial 2005-2015; 

CC – Controle de Corrupção – representa a percepção da população com relação a: o poder público ser usado para ganhos privados. Esta variável varia  de -2,5 a 2,5. Fonte: Banco Mundial 2005-2015.

6. O modelo  econométrico

A análise empírica segue a metodologia de dados em painel. As técnicas de estimação dos dados em painel podem levar em consideração a heterogeneidade explicitamente, permitindo variáveis específicas ao sujeito. Ao se combinar observações de corte transversal com séries temporais, tem-se mais informação, maior variação nos dados, menor colinearidade entre as variáveis, mais graus de liberdade e aumento da eficiência dos estimadores de mínimos quadrados. Para atingir os objetivos de pesquisa, se utiliza duas técnicas econométricas: a primeira consiste no Modelo de efeitos Fixos dentro de um GrupoFixed Effects Within-grup model, cujas variáveis são expressas como um desvio do seu valor médio e, então, se estima uma regressão de MQO contra esses valores corrigidos para a média. A segunda diz respeito ao Modelo de Efeitos Aleatórios (MEA) ou MCE – Modelo de Componentes de Erros (GUJARATI, p. 585-586). A hipótese adjacente à técnica é os valores de intercepto do  modelo sejam extraídos aleatoriamente de uma população bem maior de sujeitos. Com objetivo de descobrir qual técnica é mais adequada aos dados, realiza-se o teste de Hausman (GUJARATI, p. 596). A hipótese nula é que os estimadores do modelo de efeito fixo e efeitos aleatórios não diferem substancialmente. Caso seja rejeitada, optamos pelo método de efeitos fixos. 

De modo a verificar como área florestal (FA) responde às alterações no conjunto de regressores analisados, conforme descrito no quadro y, se propõe estimar quatro modelos econométricos aninhados. As especificações desses modelos são dadas por:

FAi, t=i, 0+γCPi, t+θUPi, t+ui, t (1)

FAi, t=i, 0+γCPi, t+θUPi, t+αHDIi, t+ui, t (2)

FAi, t=i, 0+γCPi, t+θUPi, t+αHDIi, t+ηVAi, t+ui, t  (3)

FAi, t=i, 0+γCPi, t+θUPi, t+αHDIi, t+ηVAi, t+ϖCCi, t+ui, t (4)

Em que, o subscrito i=1, 2, ...,12 é um determinado país e t = 1, ..., 11 representa os períodos. As variáveis VA – Voice Accontability e CC – Controle de Corrupção representam as variáveis de controle. O termo ui, t representa o termo de erro aleatório. Por outro lado, i, 0=0+i,  representa um intercepto aleatório, em que i é um termo de erro com valor médio nulo e 2. Em relação aos coeficientes e , respectivamente o coeficiente das variáveis produção de cereais (CP) e população urbana (UP), espera-se sinal negativo, isto é, um impacto negativo sobre a área florestal. No que tange à variável HDI, espera-se um coeficiente positivo sobre a área florestal. As variáveis VA (voice accountability) e CC (controle de corrupção), são esperados coeficientes positivos sobre a variável dependente (FA).

7. Análise e discussão dos resultados

A tabela 1 apresenta as estimações das equações 1, 2, 3 e 4, respectivamente. A tabela ora mencionada apresenta as estimações utilizando a amostra completa, isto é, com países da América do Sul. Vale lembrar que em todas as especificações os sinais ocorreram de acordo com o esperado e apresentaram significância estatística. Além disso, lançamos mão do teste de Hausman cuja hipótese nula não foi rejeitada, isto é, os estimadores se equivalem (estimadores de efeito fixo e estimadores de efeitos aleatórios). Ou seja, o estimador de efeitos aleatórios é o preferido nessa ocasião.

Em relação às variáveis de interesse (CP, UP e HDI), é possível observar que as duas primeiras apresentaram coeficiente negativo e significância estatística. Portanto, um aumento da população urbana e produção de cereais impactam negativamente a área florestal. Já a terceira variável apresenta sinal positivo e significância estatística. Portanto, há indícios de que um aumento do índice de desenvolvimento humano impacta positivamente a área florestal. As variáveis de controle, VA e CC, não apresentaram significância estatística.

Tabela

Descrição gerada automaticamente

No primeiro modelo, a produção de cereais impacta seis vezes mais a perda de área florestal do que o crescimento da população urbana. No segundo modelo, com o parâmetro IDH, a produção de cereais impacta três vezes mais do que a variável crescimento de população urbana a presença do parâmetro IDH é altamente significante, ou seja, o aumento nos índices de educação, longevidade e renda diminuem a perda de áreas florestais. De maneira que o contrário também pode se verificar: municípios com baixos índices de IDH têm maiores chances de perder suas áreas florestais.

As variáveis de voice accountability (VA) e controle de corrupção estimada (CC) aparecem no modelo como variáveis de controle. O terceiro modelo inclui voice accountability (liberdade de expressão, liberdade de associação e mídia livre) e não impactou significativamente o modelo. E o quarto modelo inclui o controle de corrupção estimada com os outros fatores apontados anteriormente incluídos. Um aumento do controle de corrupção e um aumento do voice and accountability causam uma redução na área de florestas, mas não tem significância estatística. Parece um contra-senso, mas são variáveis secundárias e não possuem muita importância no modelo.

Conforme apresentado anteriormente na discussão de literatura, Chang (2017) já havia informado o impacto da produção agrícola na perda de florestas, o exercício econométrico demonstrou significância da produção de cereais e crescimento da população urbana na perda de área florestal.

 

  1. CONCLUSÃO  

O que se verificou de acordo com a pesquisa é que 80(percent) da América do Sul reside em áreas urbanas, este é um valor altíssimo que implica também um alto grau de dependência de áreas rurais que plantam. O modelo de plantio para satisfazer quase 337 milhões de pessoas (80(percent) da América do Sul) é mecanizado, pois supre as necessidades de mercado. O modelo de crescimento econômico é dependente porque a concentração urbana implica em setores de produção para satisfazer as necessidades do meio urbano, ao passo que o desenvolvimento sustentável significa sobretudo reduzir distâncias entre a produção e o consumo. 

Considera-se que o modelo de produção agrícola mecanizado avaliado neste modelo econométrico causa impacto às áreas florestais, pois significa a troca de um ambiente repleto de biodiversidade para um ambiente de monocultura. Uma opção de produção alimentícia seria o modelo agroecológico, pois nestes não são utilizados pesticidas e consideram a presença da biodiversidade importante, bem como proporcionam relações humanas saudáveis.

Conforme abordado na revisão de literatura, as abordagens agroecológicas reconhecem que os sistemas agroalimentares são sistemas que combinam sociais e ecológicos combinados que vão da produção ao consumo de alimentos e envolvem a participação da ciência, da prática e de um movimento social, bem como sua integração holística, para abordar a segurança alimentar e a nutrição 

A redução de área florestal está intimamente ligada ao modus vivendi da sociedade contemporânea e faz parte do seu processo de desenvolvimento econômico. Considera-se  que a migração para o ambiente rural realiza contribuições positivas para o meio ambiente, em função da independência que o fator terra pode promover.

O que se verificou de acordo com o exercício econométrico e é de altíssima significância é a presença da variável IDH nos modelos 2, 3 e 4. Segundo o estudo realizado, espaços com maiores educação, longevidade e renda significam menores índices de desmatamento. E parece fazer muito sentido, pois a educação contribui na conscientização da população local, o aumento de longevidade implica que as pessoas também vivem mais e portanto é um local seguro e o fator de renda aponta que quanto maior a renda coletiva, há mais propensão a diminuir o desmatamento no local.

As variáveis de controle voice accountability não tiveram níveis de significância estimados, no entanto sua presença no modelo econométrico apontou estabilidade nas outras variáveis sobre a perda de área florestal.

A questão sobre a perda de áreas florestais impacta diretamente as futuras gerações, e portanto o crescimento econômico fundamentado nessa prática implica em um paradigma de desenvolvimento adotado para a geração de riquezas fundamentado na premissa de que o que vem da natureza é “gratuito”. O que pode-se verificar de antemão é um crescimento econômico predatório porque cresce às custas do desmatamento e diminuição da biodiversidade.   

O desmatamento é um crime que diminui a diversidade biológica e que será pago pelas próximas gerações em função dos estragos causados por esta geração que acredita ser o PIB mais importante do que a riqueza natural. O sistema econômico é um subsistema da biosfera e isso significa dizer que a natureza sempre será maior do que o processo econômico e portanto é fundamental a preservação de florestas principalmente por conta dos serviços que as florestas prestam para a estabilidade das condições climáticas. 

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Metadados do recurso
Tipo de documento: Artigo
Formato: Textual
Requisitos técnicos:
Interesse em florestas e matemática
Status: Publicado
Score: 80
Maturidade: REA
Apoio de IA: Não